Adeus, Luzia

Até a semana retrasada, ao ler esse título, muitos se perguntariam: quem era Luzia? Uma atriz de novelas? Uma atleta profissional? Alguma candidata? Parente do Zoel?
A quase totalidade dos leitores e leitoras não atinaria que Luzia era o mais antigo fóssil humano já encontrado no Brasil, na década de 1970, em Minas Gerais.
Esse achado modificou a teoria sobre a presença do ser humano no continente americano. Mas hoje Luzia não existe mais, assim como quase tudo que havia no Museu Nacional do Rio de Janeiro.
No domingo, 2 de setembro, o importante monumento histórico foi praticamente destruído por um incêndio. Muito me estranhou a comoção nacional pelo acontecido.
A imprensa e as redes sociais fizeram ampla cobertura e muita critica pela perda de uma vasta documentação e de peças importantes para as pesquisas em várias áreas do conhecimento.
Estranhei porque nunca neste país a preservação histórica foi prioridade. Praticamente inexiste pacote turístico para o Rio de Janeiro além das praias, Pão de Açúcar e Corcovado.
Da mesma forma, em nossa região, o Museu de Artes Sacras há tempos precisa de apoio e não vejo o menor interesse das autoridades por sua preservação.
Estranhei também que, quando o governo federal congelou os investimentos públicos por 20 anos, a maioria não se preocupou com o fato de que a medida atingiria os monumentos históricos.
Também estranhei a comoção, nas redes sociais do Guarujá, com o incêndio que destruiu Luzia, múmias e sarcófagos do Egito comprados por D. Pedro I através de contrabando.
Estranhei porque poucos guarujaenses se comoveram quando foi retirado de exposição pública o carro fúnebre de Santos Dumont, que até hoje quase ninguém sabe onde está.
Pior ainda, houve quem defendesse a remoção da peça alegando não se tratar de monumento histórico. Hoje, no entanto, as mesmas pessoas lamentam a perda de múmias e da Luzia.
A preservação histórica nunca foi prioridade em nossa sociedade. Por isso, muito me preocupa o nosso futuro. Afinal, quem não conhece seu passado pode cometer os mesmos erros.
É preciso lembrar a todos e todas que o Museu do Ipiranga, em São Paulo, está há mais de cinco anos fechado ao público, sem perspectiva de quando será reaberto.

 

Zoel Garcia Siqueira é professor, formado em sociologia e diretor financeiro do Sindserv Guarujá

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