Pra não dizer que não falei da Copa

Meu nome não nega. Sou neto de italianos, que imigraram no início do século 20 para ganhar a vida no Brasil. Sou brasileiro, paulista da gema, guarujaense por adoção, e minha família costuma se reunir para torcer tradicional e fervorosamente para a seleção canarinho a cada partida na Copa, mas, à italiana: muito barulho, falando alto e com muita bagunça, como não poderia deixar de ser. Nos jogos contra a Suíça e a Costa Rica, na Copa da Rússia, surgiu, então, a discussão: esse ano parece que a torcida dos brasileiros não tem sido tão fervorosa quanto em outras copas, e uma das conclusões é que o momento de crise política e econômica do País pode ter interferido. Iniciado o jogo, encerrou-se a discussão. Mas, pelo menos em mim, o assunto calou fundo. Será que o momento de depuração que o País vem vivendo nos últimos tempos afetou a atmosfera da paixão nacional? Será que é assim, também, nos outros países? Rapidamente, passei a analisar os países que dividem com o Brasil o Grupo E da Copa: Costa Rica, Sérvia e Suíça. Duas seleções latino-americanas e duas europeias. Como o Brasil, a Costa Rica passou por um processo de colonização, e aboliu a escravidão em 1824, enquanto o Brasil o fez mais de 60 anos depois, em 1888. Por si só, isso influencia e muito em seus níveis de desenvolvimento. Altamente desigual, do ponto de vista social, o Brasil tem um PIB per capita de 13,6 mil dólares e é apenas o 79º melhor IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) do Planeta, enquanto a Costa Rica tem PIB per capita de 10,9 mil dólares e é o 66º IDH do Mundo. Falar de IDH perto da Suíça é covardia: famoso pela neutralidade política, o país dos alpes se afastou das grandes guerras do último século e tem PIB per capita de R$ 80,6 mil dólares, sendo o 2º IDH do Mundo. Já a Sérvia, numa das regiões mais devastadas por guerras na Europa nos últimos 100 anos, tendo se desmembrado da antiga Iugoslávia, depois de Montenegro – isso só para falar das últimas décadas – tem 5,2 mil dólares de PIB per capita e a posição 66 no IDH. Me pus a pensar como andaria o espírito da Copa nos suíços, sérvios e costarriquenhos. É possível concluir muitas coisas com essas estatísticas. Mas não é essa a intenção, aqui. É, sim, mostrar que futebol e política/economia são línguas completamente distintas. Portanto, se você é brasileiro e apaixonado por futebol, vibre e torça como sempre. E se você quer um Brasil mais justo e que respeite direitos, cobre e fiscalize como nunca. Assim como no futebol (aí, sim!), a democracia se exercita diariamente, mas uma coisa não pode interferir na outra. E vamos em frente, rumo ao hexa e à urna, em 2018.

Marcelo Squassoni, empresário, formado em Direito e Deputado Federal (PRB)

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